Que difícil ler filósofos da Antiguidade e até alguns da contemporaneidade sem precisar repetir mentalmente: “calma, é um homem do seu tempo”. Inicialmente, uma coisa me incomodou em O Banquete, de Platão, e ela aparece logo nas primeiras páginas.
Uma mulher - "auletriz", do grego αὐλητρίς, "mulher que toca o aulo", um instrumento de sopro parecido com uma flauta dupla, chega tocando para os convidados e Erixímaco sugere que ela seja dispensada: "a próxima coisa que proponho é que dispensemos a auletriz que acaba de chegar: ela que toque para si mesma ou , se desejar, para as mulheres lá de dentro, enquanto nós hoje conversaremos uns com outros. E se for de vosso agrado, quero propor para nós o tipo de conversa." Com esse nome, nem se apresente, querido. Eu, hein.
Pois fiquei pensando naquela mulher. O que ela teria dito sobre Eros se tivesse permanecido ali? O que outras mulheres teriam pensado sobre o amor, o desejo, o corpo, a beleza? Quantas ideias ficaram fora da história simplesmente porque essas vozes não tiveram espaço para participar desses momentos?
A ironia é que, mais para o final do diálogo, quando Sócrates vai contar o que aprendeu sobre o amor, aparece Diotima e ela não é uma personagem qualquer. É a mulher que, segundo Sócrates, ensinou a ele o que sabe sobre Eros. Isso me chamou a atenção.
É claro que existe uma distância entre as duas situações. A mulher que tocava era uma auletriz, uma musicista contratada para entreter os convidados; Diotima aparece no relato de Sócrates como uma mulher sábia, estrangeira e ligada ao conhecimento religioso. Não dá para transformar isso numa espécie de “Platão finalmente deu voz às mulheres”. O contexto continua sendo profundamente masculino. Mas a coincidência é interessante.
E então vem a pergunta que percorre todo o diálogo: o que é o amor?
Cada homem apresenta uma resposta diferente:
Fedro fala do amor como uma força capaz de nos tornar corajosos. Quem ama quer ser digno aos olhos de quem ama e pode chegar a fazer grandes sacrifícios por essa pessoa.
Pausânias começa a separar as coisas. Para ele, não basta dizer que existe amor, é preciso olhar para o modo como se ama. Existe um amor ligado ao corpo, passageiro, e outro que procura alguma coisa mais duradoura, ligado à alma e àquilo que pode permanecer.
Aristófanes conta aquela história conhecida dos seres humanos que teriam sido divididos ao meio por Zeus. Desde então, cada um procuraria sua outra metade. É uma explicação bonita para essa sensação de que existe alguém que nos completa, alguém que parece ter faltado antes mesmo de aparecer.
Agatão faz um elogio ao próprio Eros. O amor aparece como jovem, belo, delicado e responsável por coisas boas que existem entre os homens.
Então Sócrates começa a desmontar essa ideia. Ou melhor: conta o que aprendeu com Diotima.
Eros não é simplesmente belo. Se desejamos o belo, é porque não o possuímos. O amor nasce justamente dessa falta. Ele deseja aquilo que não tem.
Diotima apresenta Eros como filho de Penia, a Pobreza, e Poros, o Recurso. Ele carrega os dois lados: é carente, mas também é inventivo; está sempre precisando de alguma coisa e, ao mesmo tempo, sempre encontrando maneiras de procurá-la.
Gostei dessa imagem porque ela tira um pouco o amor daquele lugar de sentimento completamente resolvido. Eros não é tranquilidade. É movimento.
E o que ele procura?
Segundo Diotima, queremos o belo e o bom, mas queremos também possuí-los para sempre. É aí que o amor se aproxima do nosso desejo de permanência. Temos filhos, criamos coisas, escrevemos, ensinamos, produzimos conhecimento, fazemos obras, deixamos alguma coisa no mundo que continue depois de nós.
O amor, então, também tem alguma relação com a nossa tentativa de lidar com a morte. E vem a famosa escada de Diotima.
Primeiro, a beleza de um corpo. Depois, a percepção de que a beleza não existe somente naquele corpo e pode ser encontrada em outros. Em seguida, a beleza das almas, dos costumes, das leis, do conhecimento. Até chegar à própria Beleza, que não depende de um corpo específico e não nasce nem desaparece.
É uma concepção bem diferente daquela ideia de que encontrar alguém significa finalmente encontrar a nossa metade e ficar completo. Em Platão, uma pessoa pode ser o começo da caminhada. O desejo que sentimos por ela pode nos levar para outras formas de beleza, de conhecimento e de criação.
Nenhum dos discursos consegue dar conta sozinho do que é o amor. Fedro fala da coragem. Pausânias, da maneira como amamos. Aristófanes, da procura por aquilo que sentimos ter perdido. Agatão, da beleza. Diotima coloca tudo em movimento: o amor deseja aquilo que não possui e, por isso mesmo, continua procurando.
No começo do livro, eu fiquei incomodada com a mulher sendo dispensada daquela conversa e, no final, gostei de encontrar outra mulher no centro daquilo que Sócrates tinha a dizer sobre Eros. Só que a contradição continua ali e eu gosto assim porque é ela que nos faz tentar compreender o amor desde antes de Cristo. ;D kkk
Afinal, o que é o amor?
Platão não me deu uma resposta, só me deixou perguntas. =D >|
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O diálogo filosófico (ou Simpósio, de Platão), foi escrito por volta de 385 a.C. a 380 a.C. A obra relata um banquete ocorrido em Atenas no ano de 416 a.C, na casa do Poeta Agatão onde vários convidados, incluindo Sócrates e Aristófanes, fazem discursos para louvar e debater a natureza de Eros (o deus do amor).