sábado, 25 de julho de 2026

Uma esquina

o sonho começou no chão.

numa esquina.

naquela rua
havia uma calçada só.

ontem,
fomos duas.

se for para passar assim,
um de cada lado,
peço à cidade
que nunca mais nos coloque
na mesma esquina.

você me encontrou.

me abraçou.

disse:

“não adianta.

você é meu oriento-amor.”

acordei.

não fui eu que inventei a palavra.

acordei inventada por ela.

oriento-amor.

ela me conhece
antes de eu conhecê-la.

parece que sabe
alguma coisa
que eu ainda não sei.

quinta-feira, 23 de julho de 2026

O abandono tem um talento diferente

outro dia alguém chorou e disse que eu não merecia ter apanhado tanto. eu também acho que não.

fui adotada quando ainda era um bebê. não escrevo isso para causar comoção, escrevo porque essa também é a minha história. não sei o que um bebê sente quando é separado da primeira mãe. talvez ninguém saiba, mas o corpo sabe algumas coisas antes das palavras.

durante muito tempo achei que a dor fosse o abandono, hoje penso diferente. o abandono foi a minha primeira marca, não o meu destino. o abandono tem um talento diferente, ele não termina quando alguém vai embora, mas encontra maneiras de voltar. às vezes numa espera, às vezes no silêncio, às vezes na vontade de explicar quem somos para alguém que já decidiu não ouvir.

às vezes sinto pena da menina que escrevia cartas para a mãe dizendo que não conseguia dormir e esperava uma resposta no dia seguinte. ela nunca vinha. ela merece ternura, mas eu já não sou ela.

um dia, esse mesmo alguém que chorou pela minha infância conheceu todas essas histórias. e foi isso que tornou tudo mais triste, porque ficou tempo suficiente para conhecer exatamente onde eu doía.

sabia o quanto pequenos gestos significavam para mim, mas “não vou fazer só porque tu queres”:

era uma fotografia.

um presente pensado e dado com carinho, não apenas prometido e fotografado para um dia dar.

um jantar, uma pizza.

uma coca zero e uma água me esperando na geladeira.

ser apresentada ao mundo sem constrangimento.

eu não queria grandes provas de amor. queria a delicadeza das pequenas escolhas. até a pequena grande escolha de falar que precisava de um tempo para se organizar. falar.

eu não esperava essas pequenas delicadezas porque ele era especial. esperava porque eu também era e sou. As pequenas delicadezas eram maneiras de dizer: você tem um lugar na minha vida, você faz parte dela, não apenas da minha agenda.

acertas coisas a gente aprende de onde vieram e aprende a não deixar que decidam tudo por nós, mas existe uma delicadeza que nenhuma aprendizagem pode ensinar. essa sempre depende do outro.

quando alguém conhece a história de alguém, também escolhe o que fazer com ela. tento olhar para a história das pessoas e ninguém se torna duro por acaso, ninguém aprende a fugir sem ter fugido de alguma coisa antes.

a dor pode deixar alguém mais gentil, mas às vezes faz exatamente o contrário. o sofrimento não melhora ninguém e parece não tornar alguém mais profundo… muitas vezes só torna a pessoa mais dura, menos delicada, menos curiosa sobre a dor do outro e cruel mesmo, vingativa com quem veio depois de algumas dores e que não foi responsável por elas e que não trairia acordo ou compromisso algum.

às vezes tenho pena da Moniquinha. Dela, eu tenho.

Da Mônica, cada vez menos.

quinta-feira, 16 de julho de 2026

profundamente desejada, não plenamente escolhida.

Uma das frases mais difíceis que já escrevi porque eu sei o que é ser escolhida. Já fui e sou todos os dia e já vivi relações em que não precisava adivinhar meu lugar, nem interpretar sinais, juntar pistas e esperar o momento certo para me sentir pertencendo e reconhecida pelo meu valor, minha existência, não pela minha utilidade.

Então, por que me perdi?

Passei tanto tempo tentando entender o que havia de errado comigo que deixei de perguntar o que havia de errado com toda a situação.

Comecei a acreditar que eu queria demais:

Que um pedido de namoro era exagero.

Que desejar conhecer a família depois de um ano era apressado.

Que desejar exclusividade na relação, era controle.

Que querer que não estivesse em um site de relacionamentos enquanto estava comigo era controle também.

Que precisar de cuidado nas minhas cirurgias era dependência.

Que eu era sensível além da conta.

Que um Uber, uma paçoca, um jantar, eram grandes investimentos.

Que talvez eu não merecesse um café da manhã, um passeio planejado no sábado: meu dia preferido.

Que perder 40kg era pouco, segundo ele.

Que se posicionar, não aceitar algumas atitudes, era ser brava demais.

Que falar um pouco mais alto em um momento de conflito e dor, era ser agressiva.

Que exigir resposta depois de dias de sumiço sem explicação, era pressão.

Que desejar um pedido de desculpas, era culpar. Quando, para mim, pedir desculpas nunca significou admitir culpa, mas um convite à compreensão: “me ajuda a te entender. Me ajuda a reparar, não fiz por mal. Deixa eu conhecer a parte de você que doeu.”

Que ser vulnerável, era perigoso: eu te observo todos os dias. Todas as tuas instabilidades.”. Quando eu acha que pudesse ser um conforto, a liberdade que eu sempre sonhei, um lugar seguro. 

Que talvez era querer demais o mesmo tratamento que ele teve outras pessoas quando terminamos: vinhos de todas as uvas, coca e água geladas. Eu nunca tive.

Que deixar um pijama em sua casa, pra facilitar a minha vida, era invasivo.

Eu não inventei uma história, não acordei um dia e decidi imaginar um presente e um futuro que não existiam ou não poderiam existir. Eu confiei nas palavras, nos olhares, na intensidade, na forma como eu era desejada. Confiei quando me disse que eu era a mulher mais linda que já havia conhecido, porque não havia motivos para desconfiar de cada palavra.

Confiei porque achei que desejo e escolha caminhavam juntos e que palavra e ação também, mas entendi que nem sempre caminham e que só a palavra é que existe. Minha confiança me é tão cara…

Ter sido profundamente desejada não substitui a tranquilidade de saber, sem precisar perguntar, que fui plenamente escolhida.

Mais difícil do que decretar um fim como decretei, é descobrir que algumas palavras também terminam. Hoje já não consigo chamar de namoro o que vivi e isso me dói mais do que o próprio fim. Para mim, as palavras nunca foram meras etiquetas: são compromissos. Uma das perdas mais dolorosas, além da beleza e verdade que eu via nele, foi esta: perder também uma palavra. Durante muito tempo chamei aquilo de namoro, hoje já não quero mais chamar. A palavra deixou de corresponder à experiência. Há palavras que, quando deixam de carregar aquilo que nomeavam, simplesmente deixam de nos pertencer. E “namoro”, para mim, já não pertence a essa história.

Hoje percebo que, para que essa palavra pudesse voltar a existir, não bastaria voltar um para o outro. Seria preciso outro encontro, outro reconhecimento, outra forma de amar, outra confiança, outra história. Talvez até outras pessoas. Algumas palavras não voltam a ter corpo por serem novamente pronunciadas. Precisam morrer… para nascer de novo. 

"Será que ela existe mesmo?". Sim, eu existo.

quarta-feira, 15 de julho de 2026

Por enquanto, nada.

Até o nada nunca é nada.

O nada pode ser um pronome indefinido, um advérbio. Pode até virar verbo: o nada pode nadar muito.

Ninguém escreve sobre nada. E escrever grandes histórias e epopeias não é tudo. A poesia é microscópica. Interessa-se até mesmo pelo... nada.

Antes de pensar, a poesia sente. Por isso não me considero intelectual. Sou sensual. Encosto o verbo na natureza. Antes de escrever, sinto, cheiro, toco, lambo as palavras.

A poesia não precisa do poeta. Ela é a natureza, os pássaros, o beijo, o sexo.

A poesia não precisa de mim.

Mas eu preciso dela.

sábado, 4 de julho de 2026

Nem melhores. Mais profundos.

Lendo A Gaia Ciência, de Friedrich Nietzsche. 

"Só o grande sofrimento, esse demorado e lento sofrimento que leva seu tempo e chega a nos consumir de alguma forma como que queimados por lenha verde, nos obriga, a nós filósofos, a descer até nossas últimas profundezas e a nos desfazer de todo bem-estar, de todo meio véu, de toda doçura, de todo meio-termo onde tínhamos talvez colocado até então nossa humanidade. Duvido muito que semelhante sofrimento nos torne "melhores"; — mas sei que nos torna mais profundos." 

sempre ouvi que o sofrimento nos ensina, nos fortalece. que nos torna pessoas melhores. foi justamente por isso que esse trecho me fez fechar o livro e não ler mais nada. só me pus a pensar.

Nietzsche não fala em pessoas melhores. ele fala em pessoas mais profundas. achei interessante essa diferença porque "melhor" é um julgamento moral. quando dizemos que alguém ficou melhor depois de sofrer, parece que a dor precisa produzir alguma virtude para fazer sentido. mas e se não for assim? e se algumas experiências não nos tornarem melhores nem piores? e se elas apenas nos obrigarem a abandonar algumas certezas, a enxergar a vida de outro modo ou a conhecer partes de nós que, em outras circunstâncias, talvez permanecessem escondidas? ainda não sei o que penso sobre isso. talvez eu mude de ideia conforme a leitura avance. mas gosto quando um livro muda a pergunta que eu estava acostumada a fazer. 


por que sentimos tanta necessidade de encontrar um sentido para o sofrimento?
será que a dor revela quem somos ou muda quem somos?
existe alguma forma de profundidade que não passe pelo sofrimento?
o que sobra de nós quando as certezas deixam de fazer sentido?
quantas das coisas em que acredito continuariam de pé depois de uma grande perda?
conhecer a si mesmo é encontrar respostas ou perder algumas delas?
se o sofrimento não nos torna melhores, o que exatamente ele faz conosco?
e se a profundidade não for encontrar quem somos, mas perder, uma a uma, as versões que inventamos sobre nós mesmos?