Uma das frases mais difíceis que já escrevi porque eu sei o que é ser escolhida. Já fui e sou todos os dia e já vivi relações em que não precisava adivinhar meu lugar, nem interpretar sinais, juntar pistas e esperar o momento certo para me sentir pertencendo e reconhecida pelo meu valor, minha existência, não pela minha utilidade.
Então, por que me perdi?
Passei tanto tempo tentando entender o que havia de errado comigo que deixei de perguntar o que havia de errado com toda a situação.
Comecei a acreditar que eu queria demais:
Que um pedido de namoro era exagero.
Que desejar conhecer a família depois de um ano era apressado.
Que desejar exclusividade na relação, era controle.
Que querer que não estivesse em um site de relacionamentos enquanto estava comigo era controle também.
Que precisar de cuidado nas minhas cirurgias era dependência.
Que eu era sensível além da conta.
Que um Uber, uma paçoca, um jantar, eram grandes investimentos.
Que talvez eu não merecesse um café da manhã, um passeio planejado no sábado: meu dia preferido.
Que perder 40kg era pouco, segundo ele.
Que se posicionar, não aceitar algumas atitudes, era ser brava demais.
Que falar um pouco mais alto em um momento de conflito e dor, era ser agressiva.
Que exigir resposta depois de dias de sumiço sem explicação, era pressão.
Que desejar um pedido de desculpas, era culpar. Quando, para mim, pedir desculpas nunca significou admitir culpa, mas um convite à compreensão: “me ajuda a te entender. Me ajuda a reparar, não fiz por mal. Deixa eu conhecer a parte de você que doeu.”
Que ser vulnerável, era perigoso: eu te observo todos os dias. Todas as tuas instabilidades.”. Quando eu acha que pudesse ser um conforto, a liberdade que eu sempre sonhei, um lugar seguro.
Que talvez era querer demais o mesmo tratamento que ele teve outras pessoas quando terminamos: vinhos de todas as uvas, coca e água geladas. Eu nunca tive.
Que deixar um pijama em sua casa, pra facilitar a minha vida, era invasivo.
Eu não inventei uma história, não acordei um dia e decidi imaginar um presente e um futuro que não existiam ou não poderiam existir. Eu confiei nas palavras, nos olhares, na intensidade, na forma como eu era desejada. Confiei quando me disse que eu era a mulher mais linda que já havia conhecido, porque não havia motivos para desconfiar de cada palavra.
Confiei porque achei que desejo e escolha caminhavam juntos e que palavra e ação também, mas entendi que nem sempre caminham e que só a palavra é que existe. Minha confiança me é tão cara…
Ter sido profundamente desejada não substitui a tranquilidade de saber, sem precisar perguntar, que fui plenamente escolhida.
Mais difícil do que decretar um fim como decretei, é descobrir que algumas palavras também terminam. Hoje já não consigo chamar de namoro o que vivi e isso me dói mais do que o próprio fim. Para mim, as palavras nunca foram meras etiquetas: são compromissos. Uma das perdas mais dolorosas, além da beleza e verdade que eu via nele, foi esta: perder também uma palavra. Durante muito tempo chamei aquilo de namoro, hoje já não quero mais chamar. A palavra deixou de corresponder à experiência. Há palavras que, quando deixam de carregar aquilo que nomeavam, simplesmente deixam de nos pertencer. E “namoro”, para mim, já não pertence a essa história.
Hoje percebo que, para que essa palavra pudesse voltar a existir, não bastaria voltar um para o outro. Seria preciso outro encontro, outro reconhecimento, outra forma de amar, outra confiança, outra história. Talvez até outras pessoas. Algumas palavras não voltam a ter corpo por serem novamente pronunciadas. Precisam morrer… para nascer de novo.
"Será que ela existe mesmo?". Sim, eu existo.