Lendo A Gaia Ciência, de Friedrich Nietzsche.
"Só o grande sofrimento, esse demorado e lento sofrimento que leva seu tempo e chega a nos consumir de alguma forma como que queimados por lenha verde, nos obriga, a nós filósofos, a descer até nossas últimas profundezas e a nos desfazer de todo bem-estar, de todo meio véu, de toda doçura, de todo meio-termo onde tínhamos talvez colocado até então nossa humanidade. Duvido muito que semelhante sofrimento nos torne "melhores"; — mas sei que nos torna mais profundos."
sempre ouvi que o sofrimento nos ensina, nos fortalece. que nos torna pessoas melhores.
foi justamente por isso que esse trecho me fez fechar o livro e não ler mais nada. só me pus a pensar.
Nietzsche não fala em pessoas melhores. ele fala em pessoas mais profundas. achei interessante essa diferença porque "melhor" é um julgamento moral. quando dizemos que alguém ficou melhor depois de sofrer, parece que a dor precisa produzir alguma virtude para fazer sentido. mas e se não for assim?
e se algumas experiências não nos tornarem melhores nem piores? e se elas apenas nos obrigarem a abandonar algumas certezas, a enxergar a vida de outro modo ou a conhecer partes de nós que, em outras circunstâncias, talvez permanecessem escondidas? ainda não sei o que penso sobre isso. talvez eu mude de ideia conforme a leitura avance. mas gosto quando um livro muda a pergunta que eu estava acostumada a fazer.
por que sentimos tanta necessidade de encontrar um sentido para o sofrimento?
será que a dor revela quem somos ou muda quem somos?
existe alguma forma de profundidade que não passe pelo sofrimento?
o que sobra de nós quando as certezas deixam de fazer sentido?
quantas das coisas em que acredito continuariam de pé depois de uma grande perda?
conhecer a si mesmo é encontrar respostas ou perder algumas delas?
se o sofrimento não nos torna melhores, o que exatamente ele faz conosco?
e se a profundidade não for encontrar quem somos, mas perder, uma a uma, as versões que inventamos sobre nós mesmos?
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