quinta-feira, 16 de julho de 2026

profundamente desejada. nunca plenamente escolhida.

E talvez essa seja uma das frases mais difíceis que já escrevi porque eu sei o que é ser escolhida. Já fui e sou todos os dias.

Já vivi relações em que não precisava adivinhar meu lugar, nem interpretar sinais, juntar pistas e esperar o momento certo para me sentir pertencendo e reconhecida pelo meu valor, minha existência, não pela minha utilidade.

Então, por que me perdi?

Passei tanto tempo tentando entender o que havia de errado comigo que deixei de perguntar o que havia de errado com a situação.

Comecei a acreditar que eu queria demais.

Que um pedido de namoro era exagero.

Que querer conhecer a família era apressado.

Que desejar exclusividade era controle.

Que querer que não estivesse em um site de relacionamentos enquanto estava comigo era controle também.

Que precisar de cuidado nas minhas cirurgias era dependência.

Que eu era sensível além da conta.

Que um Uber, uma paçoca, um jantar, eram grandes investimentos.

Que talvez eu não merecesse um café da manhã, um passeio planejado no sábado, meu dia preferido

Que perder 40kg era pouco.

Que se posicionar, não aceitar algumas atitudes, era ser brava demais.

Que exigir resposta depois de dias de sumiço, era pressão.

Que desejar um pedido de desculpas, era culpar. Quando, para mim, pedir desculpas nunca significou admitir culpa, mas um convite à compreensão: “me ajuda a te entender. Me ajuda a reparar, não fiz por mal. Deixa eu conhecer a parte de você que doeu.”

Que ser vulnerável, era um conforto, a liberdade que eu sempre sonhei e depois, muito perigoso: “eu te observo todos os dias. Todas as tuas instabilidades.”

Eu não inventei uma história. Eu não acordei um dia e decidi imaginar um presente e um futuro que não existiam ou não poderiam existir. Eu confiei nas palavras. Nos olhares. Na intensidade. Na forma como eu era desejada.

Confiei quando me disseram que eu era a mulher mais linda que já haviam conhecido. Eu acreditei porque não havia motivos para desconfiar de cada palavra.

Confiei porque achei que desejo e escolha caminhavam juntos e que palavra e ação também, mas entendi que nem sempre caminham.

E minha confiança me é tão cara…

E talvez seja isso que ainda estou aprendendo. Não a amar menos. Mas a perceber que ser profundamente desejada não substitui a tranquilidade de saber, sem precisar perguntar, que fui plenamente escolhida.

Talvez mais difícil do que decretar um fim seja descobrir que algumas palavras também terminam. Hoje já não consigo chamar de namoro o que vivi. E isso me dói mais do que o próprio fim que eu decretei. Porque sinto as palavras com o corpo. Eu as provo. Eu as demoro. Eu as lambo. Para mim, elas nunca foram meras etiquetas; são compromissos. Talvez a perda mais dolorosa tenha sido esta: perder uma palavra. Durante muito tempo chamei aquilo de namoro. Hoje já não quero mais chamar. A palavra deixou de corresponder à experiência. Há palavras que, quando deixam de carregar aquilo que nomeavam, simplesmente deixam de nos pertencer. E “namoro”, para mim, já não pertence a essa história.

Hoje percebo que, para que essa palavra pudesse voltar a existir, não bastaria voltar um para o outro. Seria preciso outro encontro, outro reconhecimento, outra forma de amar, outra confiança, outra história. Talvez até outras pessoas. Algumas palavras não voltam a ter corpo por serem novamente pronunciadas. Precisam morrer… e nascer de novo.

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