quinta-feira, 23 de julho de 2026

O abandono tem um talento diferente

outro dia alguém chorou e disse que eu não merecia ter apanhado tanto. eu também acho que não. mas existe uma dor sobre a qual quase ninguém chora.

fui adotada quando ainda era um bebê. não escrevo isso para causar comoção. escrevo porque essa também é a minha história. não sei o que um bebê sente quando é separado da primeira mãe. talvez ninguém saiba. mas o corpo sabe algumas coisas antes das palavras.

durante muito tempo achei que a dor fosse o abandono. hoje penso diferente. o abandono foi a minha primeira marca, não o meu destino. o abandono tem um talento diferente. ele não termina quando alguém vai embora, mas encontra maneiras de voltar. às vezes numa espera. às vezes no silêncio. às vezes na vontade de explicar quem somos para alguém que já decidiu não ouvir.

às vezes sinto pena da menina que escrevia cartas para a mãe dizendo que não conseguia dormir e esperava uma resposta no dia seguinte. ela nunca vinha.

acho que ela merece ternura, mas eu já não sou ela.

um dia, esse mesmo alguém que chorou pela minha infância conheceu todas essas histórias. e foi isso que tornou tudo mais triste, porque ficou tempo suficiente para conhecer exatamente onde eu doía.

sabia o quanto eu desejava ter um lugar na vida. sabia o quanto pequenos gestos significavam para mim.

uma fotografia.

um presente pensado e dado com carinho. não apenas prometido.

um jantar.

um lugar na vida.

ser apresentada ao mundo sem constrangimento.

eu não queria grandes provas de amor. queria a delicadeza das pequenas escolhas. até a pequena grande escolha de se afastar com responsabilidade para se organizar.

eu não esperava essas pequenas delicadezas porque ele era especial. esperava porque eu também sou. eram maneiras de dizer: você tem um lugar na minha vida, você faz parte dela, não apenas da minha agenda.

acho que certas coisas a gente aprende. aprende de onde vieram e aprende a não deixar que decidam tudo por nós. mas existe uma delicadeza que nenhuma aprendizagem pode ensinar. essa sempre depende do outro.

quando alguém conhece a história de alguém, também escolhe o que fazer com ela.

tento olhar para a história das pessoas e ninguém se torna duro por acaso. ninguém aprende a fugir sem ter fugido de alguma coisa antes. talvez isso explique muita coisa. mas não muda o que aconteceu.

às vezes a dor deixa alguém mais gentil. às vezes faz exatamente o contrário. o sofrimento não melhora ninguém e parece não tornar alguém mais profundo…

às vezes só torna a pessoa mais dura. menos delicada. menos curiosa sobre a dor do outro e cruel mesmo, vingativa com quem veio depois e que não trairia acordo ou compromisso algum.

às vezes tenho pena da moniquinha.

dela, eu tenho.

de mim, cada vez menos.

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