No meu álbum de sorrisos, o teu se encontra numa página solta. Não lembro o dia exato em que ele tanto se abriu que teus olhos tanto se fecharam. Nessa hora, minha mirada fez morada em ti e te fotografei.
Como de costume, te revelei no escuro; num desábito, te colei numa folha dilacerada e teu sorriso marcou cada face do meu livro de recordações. Demorei meus olhos no sorriso daquela página solta, dobrei bem pequenino, guardei fundo no bolso que te coube e saí à tua procura.
Com o teu sorriso nas mãos, encontrei teus olhos que pareciam estrelas de desenho: brilhantes e com cinco pontas, de tanto que se fechavam porque teu riso tanto se abria.
Tuas estrelas brilhantes cortaram todo o meu céu e, numa cadência, uma chuva de estrelas desaguou nos meus olhos.
E pela última vez, meus olhos se encharcaram dos teus. Remansada, lembrei que era o teu sorriso que eu tanto procurava.
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mkk
segunda-feira, 29 de abril de 2019
segunda-feira, 17 de dezembro de 2018
Me querias doce e dócil. Doce de rasgar a garganta, dócil pra me engolir por inteiro. Fui puro fel sob uma lua de mel e me cuspiste. Meu abraço era doce de tuberosa e eu perdi as contas de quantos ramos enfiei nos bolsos da tua calça. Desabrochadas, caíram sobre o chão do teu banheiro. O meu cheiro foi lavado pela água que deslizava no abraço do teu corpo, até que entrou pelo ralo. E fui puro fel, sob uma lua de mel. E me cuspiste.
quarta-feira, 2 de agosto de 2017
segunda-feira, 22 de maio de 2017
Maria
Maria é sempre Maria
Aqui, aquém e além:
A louca
Antonieta
Madalena
De Nazaré
Da artilharia, bruxaria
De quem ela quiser
Eu sempre quis ser Maria
Pura
Impura
Loucura:
Ninguém amaria
Ser Maria-Maria
Assim, por si só,
Uma Maria, tão Maria
Que Deus nunca teria dó
MKK
Aqui, aquém e além:
A louca
Antonieta
Madalena
De Nazaré
Da artilharia, bruxaria
De quem ela quiser
Eu sempre quis ser Maria
Pura
Impura
Loucura:
Ninguém amaria
Ser Maria-Maria
Assim, por si só,
Uma Maria, tão Maria
Que Deus nunca teria dó
MKK
segunda-feira, 15 de maio de 2017
Cântico Negro - José Régio
Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!
sexta-feira, 12 de maio de 2017
segunda-feira, 1 de maio de 2017
sexta-feira, 28 de abril de 2017
domingo, 23 de abril de 2017
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