esses dias eu pensei: eu vou confeccionar livrinhos. nada sofisticado. uma folha A4 dobrada ao meio, alguns grampos ou uma costura torta feita à mão. uma capa simples. um livro para a infância, outro para as mulheres que fui, outro como diário, outro para o amor. então percebi que todos falavam da mesma coisa: amor mesmo.
decidi começar pelo amor que me cabe agora. pensei em chamar o livrinho de “até parar de doer”. depois pensei em “até parar de amar”, talvez sejam a mesma coisa, ainda não sei. por enquanto o amor dói e quero que pare, acabe. quero escrever para diluir, como quem coloca água num copo de suco concentrado, bem vagabundo e e às vezes acontece justamente o contrário. eu escrevo e parece que tudo fica mais forte, como se cada lembrança fosse mais um envelope despejado dentro do mesmo copo. e a vida vai mexendo. mexendo. mexendo. até que o amor fica tão concentrado que rasga a garganta quando passa.
às vezes dói de bom, arde de doce e eu não sabia que isso era possível. então me pergunto: se é até parar de doer, o que dói? se é até parar de amar, o que amo?
às vezes é a ausência do corpo. os meus braços sabiam exatamente o quanto precisavam abrir pra abraçá-lo por inteiro. o beijo exagerado e molhado, que não era bom porque era dele, era bom porque era nosso. o corpo, que eu olhava com amor e prazer, os pêlos arrancados com a pinça. os cravinhos que eu fingia encontrar só porque ele gostava da sensação e do carinho. a mão, os pés e o abraço procurando o meu corpo durante um filme. o corpo dele dançando porque o meu dançava. os corpos no chão, os corpos debaixo da ponte. vivos, muito vivos.
não sei o que mais dói. a ausência aparece, a lembrança arromba. a lembrança entra por uma música ruim tocando no uber e nas lojas. por uma música boa que eu já amava ou que acabei de conhecer. por um fim de tarde que me lembra aquele dia. por uma frase escrita numa parede. por um reboco que parece um coração e então tudo volta. o cheiro da pele depois do banho. a risada. a intimidade. porque havia amor da minha parte. não era aquele amor elegante que sabe exatamente como se comportar. era um amor humano, cheio de esperança, de erros, insistência, de ações. o amor feinho de Adélia Prado.
havia amor nos abraços demorados, nos reencontros depois das separações, nas lágrimas derramadas nos ombros quando jurávamos que não queríamos mais ficar longe um do outro.
eu lembro do dia que te conheci por aqui. você parecia o homem que eu sempre sonhei. acho que nem todas sonham com você, mas fazia meu tipo. eu lembro de cada sensação, eu nunca te disse. e eu queria tanto que fosse o homem dos meus sonhos. será que não é? acho que não. será que nos perdemos? parece que sim. será que te perdi? será que você me perdeu? nos perdemos em outros abraços?
quando te conheci, me vi criança, te vi criança e quis nos colocar em uma redoma…
eu sonhava em compartilhar o silêncio, os dias mais ordinários, queria poder te escrever assim, bonito, enquanto ainda havia nós. queria te mandar uma mensagem te falando da minha saudade, como você fez comigo. mas eu preferi escrever aqui, onde só eu me leio e evitar te escrever durante os seus encontros. eu achava também que você conseguia ficar sozinho ou só com alguém que tivesse muita intimidade, eu me enganei.
comecei esse texto falando de você na 3a pessoa. agora falo na 2a. queria tanto que a segunda ficasse com a primeira. e é assim que termino esse texto, indo embora de novo, sem querer e amando tanto. e aos prantos, lembrando de todo encanto, desencanto, e como eu acreditei em você. mas sem pena de mim, porque eu sou assim e fim.
Nenhum comentário:
Postar um comentário